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A humanização dos espaços corporativos e a qualidade de vida

A humanização dos espaços corporativos e a qualidade de vida

As empresas vêm sofrendo grandes transformações nos últimos anos, acompanhando de perto as revoluções da tecnologia, em especial aquelas que visam o aumento da produtividade e que envolvem a comunicação, seja ela dentro da equipe ou como meio de divulgação de um produto ou serviço.

Ter uma equipe antenada e qualificada é um dos fatores primordiais para o sucesso das corporações contemporâneas; fornecer os equipamentos e as ferramentas adequados para a prestação dos serviços também é fundamental dentro de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e agressivo… tais estratégias já não são mais novidades para os gestores que lidam diariamente com a árdua missão de manter a produtividade das empresas sempre em alta. Considerando que a maior parte das empresas já adotam essas medidas, o que poderia diferenciar a qualidade da prestação de serviços entre empresas que atuam no mesmo ramo?

Segundo Batista (2015), a qualidade das empresas contemporâneas não pode mais ser analisada e julgada somente por sua estrutura, equipamentos e mobiliários:

“Da mesma forma que as máquinas precisam de um estudo para serem instaladas, de uma manutenção frequente, de cuidado no seu manuseio, assim também é o homem”

Ou seja, o bem-estar e a motivação de seus colaboradores, ou a “humanização” do ambiente corporativo, surge como um parâmetro essencial para medir o sucesso de uma empresa.

Neste contexto, a maneira como o espaço físico das empresas se configura tem o poder de influenciar de maneira positiva ou negativa na saúde física e mental de seus colaboradores, impactando diretamente nos níveis de produtividade. Sendo assim, a Arquitetura também se preocupa com essa relação, e procura sempre as melhores maneiras de planejar e projetar um ambiente mais flexível, confortável e dinâmico, aliando a nova estrutura organizacional corporativa (área de atuação, cultura da empresa, relações interpessoais) com o fator humano (bem-estar e saúde física e psíquica).

O conceito de “humanização” não é recente: na década de 80, com as inovações trazidas pela tecnologia da comunicação (e pela própria globalização), houve também uma mudança no comportamento do “gestor”, no qual “liderar deixou de ser sinônimo de dominar e passou a ser entendido como uma arte de convencer as pessoas a trabalharem juntas por um objetivo comum” (CAMPOS apud BATISTA, 2015). Morgan (apud BATISTA, 2015) afirma que o processo de humanização dentro das empresas gira em torno primordialmente das pessoas, e não das técnicas.

Portanto, pode-se dizer que o conceito de “humanização dos espaços” considera a valorização do ser humano, levando em conta suas qualidades individuais e seu comportamento no âmbito coletivo, potencializando tais características por meio de um espaço construído planejado adequadamente, tendo como base a visão e a missão da empresa.

Algumas estratégias adotadas pelas empresas de sucesso.

Empresas como Google, Airbnb e a brasileira Nubank são bons exemplos quando o assunto é o projeto de suas sedes, já que enfatizam os valores e a missão da empresa não somente nos treinamentos dos colaboradores, mas também no tratamento do espaço construído. A nova sede da Airbnb no Brasil, por exemplo, foi implantada na Vila Madalena, bairro reconhecidamente “boêmio” da capital paulista, de propósito, já que reflete a jovialidade e a extroversão presente nos serviços oferecidos pela empresa norte-americana; o mesmo ocorre no projeto de interiores do escritório, onde os espaços para trabalhado devem seguir um padrão de “flexibilidade”, já que uma das filosofias da empresa é justamente a liberdade de realizar as tarefas. Inclusive, para elucidar este conceito, as estações de trabalho foram pensadas para atender os usuários de maneira adaptável e rotativa, já que há uma troca constante de colaboradores que vêm e vão para a matriz, em São Francisco. Neste caso, o design do mobiliário para as estações de trabalho, bem como sua localização e acesso, foi considerado ainda na fase do briefing (que antecede a concepção do projeto arquitetônico), considerando os desejos e o sistema de trabalho da Airbnb.

Já na nova sede da Nubank, localizada em um novo edifício no bairro de Pinheiros, São Paulo, trabalhou a espaciabilidade interna contemplando a informalidade (uma marca registrada da cultural da empresa), por meio de espaços de lazer diversos, como sala de jogos tradicionais (como pebolim, videogame e sinuca) áreas para descanso externas, salas de reunião que lembram “botequins”, intercaladas com ambientes de atmosfera mais intimista e sóbria, como a biblioteca, destinada exclusivamente ao “silêncio absoluto”, para aqueles que precisam realizar tarefas que exigem um maior grau de concentração. Uma outra estratégia adotada pela empresa foi o incentivo para que cada equipe participasse da decoração das salas e estações de trabalho, permitindo uma personalização do ambiente de acordo com os gostos e necessidades de cada um dos usuários.

Podemos notar que em ambas empresas o espaço coletivo é construído privilegiando questões individuais dos colaboradores, onde se foca nas necessidades e no bem-estar destes como uma estratégia, bem executada pelos gestores, para que todos sintam-se em um ambiente confortável, acolhedor e familiar. Sentindo-se respeitado e com maior liberdade para trabalhar, o colaborador confia nos valores da empresa, e empenha-se mais para atingir seus objetivos.

“Investir em humanização certamente é aumentar a produtividade e competitividade, contribuindo para o crescimento, a lucratividade e a saúde financeira não só para a instituição corporativa, mas também para seus colaboradores. ” (BASTISTA, 2015, pag. 4)

A concepção do espaço: fatores para um projeto de qualidade

Para um bom projeto arquitetônico destinado aos ambientes corporativos, é imperativo que o profissional responsável pelo novo projeto e o gestor da empresa planejem, em conjunto, quantos e quais serão os ambientes previstos para o espaço, sempre considerando as características laborais da empresa (ramo e serviços oferecidos), o local para as instalações (o tipo de edificação, área disponível para a locação das atividades), os usuários (colaboradores fixos/temporários, clientes, etc.) e a cultura da empresa (visão e missão, comunicação, etc.). Junto a este levantamento, os gestores já devem elencar quais as atividades previstas neste ambiente de trabalho, ou seja, quais serão os espaços destinados às atividades laborais, administrativas, áreas de apoio, áreas técnicas, áreas de descanso e para atividades de lazer. É importante fazer esta lista ainda na fase do planejamento, já que cada uma das atividades apresentadas possui características de projeto distintas, e sua definição antes da elaboração do projeto arquitetônico contribui, de maneira positiva, para a qualidade do ambiente construído e, por consequência, para a saúde dos colaboradores.

Neste contexto, podemos elencar 3 grandes fatores fundamentais a serem considerados para o planejamento e projeto de espaços corporativos adequados:

  • Programa de Necessidades, Setorização e Fluxograma das Atividades relacionadas;
  • Ergonomia e Mobilidade;
  • Conforto Ambiental e Sustentabilidade (iluminação, clima, acústica, cores, etc.);

Pequenas mudanças no ambiente construído, que podem sair do convencional esperado para as áreas de lazer e descanso, podem motivar substancialmente a equipe de colaboradores a trabalhar com mais afinco, já que essas estratégias demonstram que os gestores se preocupam com o bem-estar da “força motriz” da empresa, oferecendo a seus funcionários ambientes personalizados, condizentes com o tempo e as necessidades atuais. Os próximos textos abordarão de maneira aprofundada cada um dos fatores listados, sempre considerando a relação técnica e conceitual com as condições humanas das empresas, foco dessa série.

Até breve!


Referências:

BATISTA, A.C.A. Arquitetura de espaços corporativos: flexibilidade de uso, conforto e dinamismo. Revista Online IPOG – Especialize, 2015. Disponível em: https://www.ipog.edu.br/revista-especialize-online/edicao-n9-2015/arquitetura-de-espacos-corporativos-flexibilidade-de-uso-conforto-e-dinamismo/, acessado em novembro/2017.

GALERIA DA ARQUITETURA. Airbnb São Paulo – MM18. Disponível em: https://www.galeriadaarquitetura.com.br/projeto/mm18-arquitetura_/airbnb/3387, acessado em janeiro/2018.

SALOMÃO, K. Por dentro da sede roxa e inovadora da Nubank. Revista Exame, 2016. Disponível em: https://exame.abril.com.br/negocios/por-dentro-da-sede-roxa-e-inovadora-do-nubank/, acessado em janeiro/2018.


 

Camila Forcellini

A PROF.ª MS. ARQ.ª CAMILA D.S. FORCELLINI é arquiteta e membro da F.ACT.ORY Arquitetura e Produções.

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