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Arquitetura e Qualidade de vida – Conforto Ambiental

Arquitetura e Qualidade de vida – Conforto Ambiental

“O planejamento físico aliado a padrões que compreendam as necessidades dos usuários, no âmbito do conforto ambiental, estruturas e formas estéticas, são padrões a serem alcançados, condicionando o uso agradável do seu espaço. ” (FONSECA apud BATISTA, 2015)

No primeiro texto desta série, sobre Humanização nos Espaços Corporativos, apresentamos uma breve explanação sobre o conceito de “humanização de espaços”, sua importância e alguns exemplos de como ela vem sendo aplicada na concepção dos espaços internos das principais empresas globais.

O segundo texto, falamos sobre os tipos de atividades previstos para o espaço da empresa, classificados conforme suas características principais (atividades laborais, lúdicas, esportivas, etc.), bem como sua importância para a elaboração do Programa de Necessidades, fundamental para definir, setorizar e pré-dimensionar adequadamente os ambientes internos e externos.

Por fim, no terceiro texto, dissertamos sobre os estudos da Ergonomia e como ela pode contribuir positivamente com a saúde física, mental e emocional dos colaboradores, e explanamos sobre a importância de se projetar um espaço corporativo acessível e inclusivo.

Quando abordamos sobre o bem-estar humano, não podemos nos esquecer dos sentidos, ou seja, das sensações que temos em determinadas situações, e em determinados lugares. Na Arquitetura, as condições ambientais, tais como temperatura, iluminação, acústica e circunstâncias energéticas, são fatores estudados na disciplina que chamamos de Conforto Ambiental.

Vamos entender como a Arquitetura lida com cada um desses fatores para garantir a qualidade do espaço e o bem-estar dos usuários?

CLIMATIZAÇÃO: CONFORTO TÉRMICO

O controle da temperatura do ambiente construído é sempre um fator relevante (e em constante discussão) nos estudos sobre o Conforto Ambiental. As condições climáticas do ambiente estão relacionadas a fatores naturais (insolação, ventos e vegetação) e a fatores artificiais (posicionamento da edificação no terreno, localização e dimensões das janelas, construções no entorno, tipo de material utilizado para os revestimentos, etc.).

Um projeto ideal deve considerar todos os fatores presentes, e tentar compensar os incômodos ocasionados ou pelas condições naturais ou pelas artificiais; tal qual o planejamento do layout, é importante analisar as condições climáticas do ambiente construído, para que se possa buscar a melhor solução para a climatização. Mais uma vez, as atividades que serão exercidas no espaço corporativo serão o fio condutor para estabelecer as ações necessárias do projeto de climatização, bem como para os demais fatores relacionados ao Conforto do ambiente construído.

Um dos maiores incômodos relatados pelos funcionários de escritórios é com relação ao uso do ar condicionado. Já que cada indivíduo possui um determinado grau de sensibilidade às alterações de temperatura, é comum os gestores ouvirem queixas quanto ao uso do equipamento, assim como também é recorrente os casos de doenças respiratórias, que podem gerar afastamentos (ou seja, prejuízo à vista para a empresa…). O uso do ar condicionado nos ambientes deve ser encarado como um complemento ao projeto de climatização, e não como o instrumento principal para solucionar os desconfortos das altas temperaturas. Vejamos algumas estratégias para viabilizar o controle adequado das temperaturas em espaços internos:

– Analisar as condições do ambiente, considerando a presença dos fatores naturais e artificiais no espaço construído;

– Averiguar quais as condições climáticas adequadas para a atividade que será exercida no local. Por exemplo: se o ambiente for destinado a alguma atividade física com alto gasto calórico, deverá haver uma atenção especial à ventilação, permitindo a dissipação do calor e a circulação do ar fresco. Quando necessário, o uso cautelo do ar condicionado auxiliará na melhora das condições do ambiente.

– O oposto também é válido: caso o ambiente exija uma temperatura mais elevada, a circulação do ar terá um controle mais rigoroso, eventualmente em conjunto com o uso de aquecedores. Projetos especiais são destinados a ambientes destinados à preservação de alimentos, amostras de espécimes vegetais e medicamentos, já que exigem um controle de temperatura mais minucioso, bem como o respeito a normas técnicas específicas;

– Sempre priorizar o uso da ventilação natural por meio das aberturas. Quando da elaboração do layout para o espaço, o posicionamento do mobiliário deve considerar a localização das principais fontes de ventilação e iluminação naturais, sempre atendendo às demandas de cada tipo de atividade. Quando isso não for possível, a localização dos aparelhos de climatização (ar condicionados, exaustores, aquecedores) deve ser distribuída de maneira que não prejudique a saúde dos usuários (deve-se evitar a instalação em espaços de permanência contínua, como em cima das cadeiras o na frente das estações de trabalho, por exemplo), para que a incidência do ar não atinja diretamente os indivíduos.

– Quando for o caso, o ambiente também deve possuir um controle para a incidência direta dos raios solares, responsável pelo aquecimento do espaço interno. Tal controle pode ser feito por meio de elementos construídos, como marquises e brises­-soleis (“brises”), alocados na parte externa da edificação, ou por elementos do mobiliário, como cortinas e persianas.

– É importante fazer um estudo para averiguar o tipo, a potência e quantos aparelhos de ar condicionado serão suficientes para atender às demandas de climatização dos ambientes. A unidade de potência utilizada para o ar condicionado chama-se Btu (British termal unit), sendo por meio dessa medida que a quantidade de calor presente no ambiente é medida. A capacidade térmica de um aparelho de ar condicionado é especificada por Btu/h, ou seja, é a medida dada para a quantidade de calor que o equipamento retira do ambiente por hora. Sendo assim, um número inadequado de aparelhos em um ambiente (para mais ou para menos) causará desconforto aos usuários. Para este tipo de especificação, é recomendado procurar um profissional ou empresa especializada em projetos de climatização e, o mais importante, consultar os colaboradores sobre suas preferências, mostrando o engajamento dos gestores em construir um espaço salutar e igualitário.

– O uso de materiais que auxiliem no controle da temperatura interna para o piso, paredes e forro também é uma estratégia muito boa. Pequenos jardins internos e o uso de plantas específicas para o ambiente interno, além de tornarem o ambiente mais agradável, funcionam como catalizadores climáticos, auxiliando no controle da temperatura interna e na purificação do ar.

ACÚSTICA: CONFORTO AUDITIVO

O controle de ruídos internos e externos de uma edificação também deve ser um fator importante para o estudo do Conforto Ambiental. Algumas atividades podem gerar ruídos incômodos para os demais colaboradores, bem como gerar interferências externas; assim como os ruídos do entorno também podem interferir nas atividades da empresa.

O ruído incomoda quando:

– Impede a recepção e o entendimento de alguma informação;

– Impede a emissão de uma mensagem;

– Está dissociado visualmente de sua fonte.

A exposição constante aos ruídos indesejados, em ambientes sem controle acústico, pode gerar patologias a médio e longo prazo nos colaboradores, como: falta de concentração, fadiga mental, mudanças de comportamento, alteração na qualidade do sono, e perda temporária ou permanente da audição.

“De fatores como forma, dimensão, volumetria, revestimento e material de vedação depende o som percebido pelo receptor. O tratamento acústico de um ambiente deve conciliar o isolamento quanto aos ruídos externos com a inteligibilidade para os sons desejados. “ (BARROSO-KRAUSER, 2012)

Tal qual a sensação térmica, cada indivíduo tem uma tolerância maior ou menor ao ruído. Sendo assim, existem algumas medidas e estratégias que podem ser adotadas para o conforto acústico do ambiente:

– A setorização bem planejada das atividades;/funções pode mitigar os efeitos desagradáveis de ruídos próximos, provocados pelas atividades internas e/ou pelas atividades que ocorrem no entorno da edificação. A distribuição inteligente dos espaços, isolando o máximo possível os ambientes destinados a atividades que exijam um grau maior de atenção, daquelas que provocam ruídos mais elevados, corrobora para o conforto acústico;

– O uso de materiais com potencial para isolamento acústico é um diferencial; madeira e tecidos (tapetes e carpetes) tidos como bons isolantes acústicos, pois têm uma capacidade de absorção maior do som (tanto que são muito comuns nos revestimentos em teatros, cinemas e auditórios). Para a execução de vedações (paredes, por exemplo), também é comum o uso do gesso, o drywall, preenchido com material isolante (lã de vidro, por exemplo) para auxiliar na absorção dos ruídos.

– Eventualmente, a instalação de janelas antirruído pode ser necessária para conter o incômodo dos ruídos externos (ou mesmo interno).

– Algumas atividades específicas precisam recorrer a normas técnicas para seu projeto e execução. Portanto, é recomendado procurar um profissional especialista na área.

ILUMINAÇÃO E INSOLAÇÃO: CONFORTO VISUAL

A Luminotécnica “trata da disposição, quantidade e integração dos pontos de luz interno e externos em uma edificação”, complementando a entrada da luz solar em um ambiente, suprindo as necessidades visuais humanas para a execução de atividades.

A iluminação adequada para um ambiente deve aliar as condições naturais (ou seja, a incidência da luz solar) com a distribuição adequada dos componentes, bem como o uso de equipamentos de qualidade. Um bom projeto luminotécnico apresenta vários benefícios, tais como:

– Proteção à vista;

– Elevação no rendimento para o trabalho;

– Diminuição de erros e acidentes (segurança);

– Conforto e bem-estar;

– Economia: a integração eficiente entre a luz natural e a artificial pode reduzir em até 30% o consumo de energia elétrica.

O projeto de iluminação deverá ser feito levando em consideração os seguintes fatores:

– Dimensões o ambiente: cada lâmpada possui um índice de fluxo luminoso, ou seja, a quantidade de luz emitida em uma fonte. Para suprir as dimensões do ambiente, um cálculo é feito para averiguar quantas luminárias são necessárias para suprir a demanda de luz no ambiente. Sendo assim, esse número varia conforme o tamanho do espaço e o tipo de atividade exercida;

–  Função do ambiente/atividade operacional: de acordo com a NBR ISO CIE 8995-1: Iluminação de Interiores, cada tipo de atividade necessita de um índice de luz média para que seja exercida de maneira salutar. A esse índice é denominado Iluminância, cuja unidade de medida é o lux. Esses índices são normatizados e, portanto, recomenda-se recorrer a um especialista para que seja verificada a quantidade de lux recomendada para a atividade prevista no ambiente, já que algumas operações exigem um fluxo luminoso maior ou menor (por exemplo, a iluminação prevista para uma sala de cirurgia será maior do que para um ateliê de projetos);

– Quantidade de horas que o ambiente será utilizado: cada tipo de função também possui uma quantidade de horas para sua execução. O cansaço visual provocado por uma iluminação inadequada, aliado ao esforço físico e mental natural para a execução dos ofícios, podem ocasionar em sérios problemas de saúde a médio e longo prazo. Portanto, é preciso considerar o tempo de permanência no espaço em conjunto com o tipo de atividade a ser exercida, gerando um ambiente com iluminação adequada, para que o usuário não faça um esforço maior do que o indicado para visualizar e executar suas tarefas;

Como visto, o projeto de iluminação correto possui peculiaridades que exigem o conhecimento de um especialista. Neste caso, recomenda-se sempre recorrer a este profissional, para garantir a qualidade do espaço construído.

O USO DE CORES NO AMBIENTE:

A Cor é um dos elementos do Alfabeto Visual, indissociável da Luz, sendo também um fenômeno óptico, uma sensação processada pelo nosso cérebro.

Dentro do contexto do Conforto Visual, existem algumas estratégias que podem auxiliar para a criação de um ambiente confortável, acolhedor e que incentive à realização das atividades previstas: o uso correto das cores no projeto arquitetônico.

Segundo o conceito de psicologia das cores, existem alguns tons que estimulam os sentidos humanos, enquanto outras acalmam. Neste contexto, temos as cores chamadas quentes, que normalmente estão associadas a alegria, extroversão, ação, velocidade, calor. Já as cores denominadas frias são comumente associadas a tranquilidade, relaxamento, criatividade, tristeza, distanciamento. Temos também as cores tidas como neutras, caracterizadas pela cor branca, as variações de tons de cinza e os tons chamados de pastéis.

No projeto de interiores (decoração), é comum adotar uma paleta de cores considerando o propósito do ambiente, ou seja, aliando cores quentes e frias, com variação de nuances, para compor um espaço harmonioso. Por exemplo: é comum vermos o uso de cores quentes em ambientes destinados ao esforço físico, como academias, ou que exigem uma velocidade maior das tarefas (como redes de fast food…o vermelho e o amarelo da rede McDonald’s não foram utilizadas por acaso!). Em hospitais, o uso do azul e do verde, em conjunto com tons neutros, como o branco, é quase que predominante, por se tratar de um ambiente que exige tranquilidade, já que atende pessoas em processo de recuperação da saúde.

Para uma boa escolha das cores no ambiente corporativo, é preciso, uma vez mais, ter o conhecimento sobre as características das funções/atividades previstas. Um profissional qualificado, como o arquiteto ou o designer de interiores, pode direcionar e propor as melhores soluções para a decoração do ambiente.

CHECKLIST PARA A CONCEPÇÃO DE UM ESPAÇO HUMANIZADO:

Agora que completamos essa série, vamos relembrar quais fatores precisamos considerar para a concepção de um espaço corporativo salutar e humanizado:

– Planejar as atividades/funções que serão inseridas no espaço, seguindo os valores e objetivos da empresa, as características laborais, o local das instalações e os futuros usuários. Esse planejamento deve ser feito em conjunto, por gestores, colaboradores e profissionais especialistas na concepção e execução do projeto arquitetônico;

– Elaborar o Programa de Necessidades para o espaço, setorizando as atividades conforme suas características. O uso de um Fluxograma é uma boa estratégia para visualizar e validar a setorização dos ambientes;

– Considerar os conceitos da Ergonomia para a escolha do mobiliário e de outros equipamentos, respeitando as características de cada atividade, bem como os conceitos de Acessibilidade, garantindo um espaço democrático e, portanto, acolhedor;

– Adequar o espaço conforme as condições ambientais (temperatura, iluminação, acústica), com a finalidade de garantir o Conforto para os usuários.

Mais do que recorrer a conceitos e técnicas, o maior engajamento que uma empresa pode ter para humanizar o espaço construído é o diálogo: a capacidade de ouvir, compreender e discutir ainda é a melhor estratégia para que o ambiente corporativo seja um lugar acolhedor, agradável e inspirador para motivar a produtividade e o sucesso da empresa.

Até a próxima!


Referências:

BARROSO-KRAUSER, Cláudia. Conforto ambiental: o homem e suas necessidades acústicas –  O som e sua relação com o homem e o meio que o circunda. Disponível em: http://www.ceap.br/, acessado em fevereiro/2018.


Ouça o podcast cobrindo todo o tema de humanização dos espaços corporativos

Camila Forcellini

A PROF.ª MS. ARQ.ª CAMILA D.S. FORCELLINI é arquiteta e membro da F.ACT.ORY Arquitetura e Produções.

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