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Democratizando o espaço: ergonomia e mobilidade nas áreas internas

Democratizando o espaço: ergonomia e mobilidade nas áreas internas

No texto anterior, falamos sobre a importância da definição dos tipos de atividades para o planejamento do espaço interno, por meio da elaboração do Programa de Necessidades. Em seguida, abordamos também sobre o Fluxograma de Atividades, uma boa estratégia para a Setorização dos ambientes/atividades no espaço interno.

 “O homem é a medida de todas as coisas” (Protágoras)

O filósofo sofista Protágoras inaugurava a ideia de que a verdade depende da experiência pessoal, e que o homem seria o parâmetro principal para a concepção de todas as coisas, materiais e imateriais; defendia que qualquer afirmação sempre era relativa a um ponto de vista, a uma sociedade ou ao modo de pensar.

Na imagem, algumas medidas padrões do corpo humano, a escala fundamental para os estudos sobre a Ergonomia. Fonte: www.pinterest.com

Na arquitetura, o homem é a escala fundamental para a concepção de espaços e das respectivas instalações, como o mobiliário e sistemas complementares (iluminação, climatização, paisagismo, etc.). E todas as necessidades humanas, sejam elas de caráter físico, mental ou emocional, são a “pedra angular” para o projeto arquitetônico; e é aí que entra a análise da Ergonomia.

Derivada do grego ergon (trabalho) e nomos (normas, regras), trata-se da ciência que estuda a interação humana com outros elementos e sistemas, com o intuito de estabelecer métodos e padrões salutares a fim de “otimizar o bem-estar do indivíduo e o desempenho global do sistema”, seja este último de natureza física, cognitiva ou organizacional (IEA, 2000).

De acordo com dados da Previdência Social (base ano 2011), cerca de 90% dos afastamentos dos trabalhadores estão relacionados com doenças osteomusculares e sofrimento mental (estresse físico/mental e doenças relacionadas, como a depressão), o que gera um alto custo para a Previdência e um prejuízo para a produção e, portanto, para a economia (Revista Proteção, 2011). Essa situação normalmente ocorre pela falta de organização no ambiente corporativo, que engloba questões de projeto, como o uso inadequado do mobiliário ou a falta de instalações específicas, e que sofrem adaptações equivocadas (feitas inclusive pelo próprio colaborador); outro problema é a má gestão na empresa, que não observa (ou não se preocupa) com as condições do espaço e os problemas que a falta da ergonomia pode causar, tais como:

  • Esforço físico em excesso e/ou mecânica do movimento inadequada, o que pode ocasionar a famigerada lesão por esforço repetitivo – LER;
  • Problemas na postura corporal, podendo comprometer outras atividades cotidianas do indivíduo;
  • Desmotivação, que pode levar a uma queda no desempenho e na produtividade, podendo evoluir para uma doença emocional mais grave, como a depressão.

Segundo pesquisas feitas pelo francês Henri Savall, professor da Business Science Institute, a aplicação dos conceitos de Ergonomia no ambiente corporativo pode gerar:

  1. uma redução de 3% das ausências dos funcionários no trabalho;
  2. redução de até 50% na taxa de retrabalho das tarefas;
  3. um percentual de até 95% no cumprimento das metas/entregas de produtos e serviços dentro do prazo estabelecido.

Para garantir a qualidade do ambiente interno, é necessário um estudo prévio para a concepção e implantação do mobiliário que será instalado na empresa, considerando os seguintes fatores:

  • Dimensões do espaço;
  • Altura média dos usuários (pontos que influenciam a instalação das bancadas, mesas e prateleiras, por exemplo);
  • Mobilidade e acessibilidade (lembrando que Portadores de Necessidades Especiais – PNEs, poderão trabalhar/frequentar o local);
  • Tipo de iluminação correta, sempre relacionada à atividade que será exercida no espaço;
  • Temperatura e Acústica (também considerando o tipo de atividade prevista para o ambiente);
  • Campo de visão.

A definição acertada do mobiliário também depende da cultura e da proposta de trabalho da empresa. Na sede brasileira da Airbnb, o conceito de mobilidade para trabalhar foi um fator decisivo para o projeto do mobiliário e para a setorização das atividades laborais: “[na Airbnb] você pode trabalhar no sofá, na cozinha, no phonebuff. É o conceito do laptop, que você carrega para todos os espaços” afirma Marcos Paulo Caldeira, arquiteto do escritório MM18, responsável pelo projeto arquitetônico da empresa. Outra estratégia ado  tada para conceber o design do mobiliário é a vocação da marca em buscar um ambiente informal, quase que caseiro, para que os funcionários se sintam como se estivessem trabalhando em suas próprias residências, numa clara referência às características dos lugares que são ofertados pelos Airbnb.

Estações de trabalho na sede da Airbnb, em São Paulo: uso de mobiliário simples e decoração com características caseiras, seguindo a cultural informal da empresa. Fonte: www.galeriadaarquitetura.com.br

 

É importante salientar que a criatividade para a concepção da arquitetura de interiores também está sujeita a normas técnicas para sua validação. Duas importantes normas para a criação, adaptação, regulamentação e fiscalização do projeto para em espaços corporativos são:

  1. NR 17 (Norma Regulamentadora nº 17 – Ergonomia), que estabelece parâmetros “que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente”, ou seja, é a norma que condiciona dimensões, quantitativo, qualitativo e outras características de desenho adequadas para as diversas atividades laborais regulamentadas por lei;
  2. ABNT NBR 9050:2015 (Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos). Essa norma é a mais completa no que tange o projeto arquitetônico e implantação de instalações contemplando principalmente os conceitos de desenho universal e acessibilidade. O documento traz diretrizes quantitativas e qualitativas que vão desde dimensionamento de rampas para pedestres e veículos, tipos de mobiliários, até sanitários adaptados para Portadores de Necessidades Especiais (PNEs), apresentando ainda ilustrações para facilitar o entendimento.

Vale lembrar que o profissional mais qualificado para orientar o melhor aproveitamento dos espaços, bem como a adequação do mobiliário e dos equipamentos seguindo as normas técnicas é o arquiteto. Como dito nos textos anteriores, um planejamento conjunto entre este profissional, os gestores e os colaboradores da empresa é essencial para que o espaço seja concebido com qualidade, respeitando prazos e custos para seu projeto e execução.

Algumas estratégias que a ergonomia propõe para o bem-estar dos funcionários:

Para mitigar os problemas e garantir a qualidade de vida dos colaboradores, algumas estratégias de projeto e de gestão presentes nos estudos da Ergonomia que devem ser consideradas:

– Adotar o mobiliário/equipamento adequado para a atividade que será exercida, considerando também o tempo destinado à função. Por exemplo, usuários de computadores devem posicionar a tela do monitor em uma altura na qual não se exija a inclinação da cabeça para uma visualização plena. Já o teclado deve ficar em um local em que as mãos fiquem eretas e os braços, relaxados, e o mouse deve ser manuseado mantendo-se o cotovelo o mais próximo possível do corpo;

– Propor espaços para descanso e divertimento, de maneira a incentivar os funcionários a fazerem pequenas pausas fora das estações de trabalho, relaxando assim o corpo e a mente;

– Propor atividades relacionadas à ginástica laboral, como alongamento antes, durante e após o expediente, ou técnicas de meditação e relaxamento, de preferência em espaços concebidos para este fim. Um educador físico é o profissional mais adequado para estabelecer esses tipos de atividades, de acordo com as funções laborais da empresa;

– A criação de espaços amplos, bem iluminados e climatizados corretamente também contribuem para um melhor desempenho dos colaboradores. Falaremos mais sobre a importância das questões sensoriais no projeto do espaço corporativo em nosso próximo texto, o último dessa série.

Até breve!


Referências:

 

Camila Forcellini

A PROF.ª MS. ARQ.ª CAMILA D.S. FORCELLINI é arquiteta e membro da F.ACT.ORY Arquitetura e Produções.

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